A VIDA APESAR DOS PROBLEMAS TEM QUE SER VALORIZADA E VIVIDA DA FORNA COMO É, TORNANDO-A A "VIDA"

Lágrimas, gritos e urros, tudo isso é muito pouco para estravazar a tristeza que sentimos pela falta que o Luciano está nos fazendo, nosso consolo vem de Deus que O tem em Sua companhia, entretanto, no momento a compaixão de amigos, que neste momento se mostram verdadeiros irmãos nos acalenta muito (Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão. Provérbios 17:17).

A vida do Luciano sempre foi muito intensa, e sempre cativava as pessoas com quem se relacionava, talvés isto se deu por sua simplicidade, carisma, alegria, maneira positiva de encarar a vida, ou mesmo por seu porte e beleza física que já o destacava a distância, ou através de seus dons com o violino, violão, craviola, guitarra, gaita, e até voz, faziam com que ele expressasse sua sutileza a linguagem universal que é a música, ou pelo o esporte, o triathlon, com o qual mostrou ao mundo que as pessoas podem se ilimitar nas suas limitações físicas, mas provou também que mesmo em momentos de dor, decepção e sofrimento pode-se manter a paz e confiança que independente do que vier, a vitória está com Deus. Na escola, na igreja, em seu convívio social, esportivo, e acadêmico (nos cursos de administração de empresas e agora medicina), e até mesmo em um leito hospitalar, que como paciente, e por incrível que pareça até mesmo sedado, sem dizer ou manifestar nada, atraiu e de alguma forma exerceu influência sobre as pessoas mostrando a todos que “
a VIDA apesar dos problemas, tem que ser valorizada e vivida da forma como é, tornando-a A VIDA”.

A despeito de tudo que temos passado, nos resta a falta do Luciano, suas lembranças e marcas deixadas como prova da existência de Deus. Suas pegadas cravadas em nosso meio, mostra de onde veio, por onde passou, e para onde ele foi, ou seja, onde está.


Veja em seguida alguns depoimentos recebidos com as impressões de algumas pessoas com quem o Luciano conviveu nos últimos tempos, algumas delas sem nem ter tido a oportunidade de o ver acordado... suas identidades serão preservadas por acreditar que as respectivas palavras não vieram de si próprias, mas do mover de Deus em suas vidas.

DEPOIMENTO I 
Queridos Sissi e Orlando,
Obrigado por vocês serem tão especiais.
Pensando em vocês eu aumento mais a minha fé nas pessoas, e na grande família dos seres humanos, filhos de Deus.
Obrigado por terem criado um filho tão maravilhoso quanto o Luciano, ele nos dá forças para vencer os obstáculos.
Eu acredito em milagres. O Luciano é um dos milagres que tivemos a oportunidade de ver.
Ele está aqui conosco, o seu exemplo e a sua vida perduram nas nossas vidas.
Um grande beijo carinhoso de um amigo, que mais recebeu de vocês do que pôde dar. 

Assinado, médico Dr. X.


Abaixo, envio o que escrevi de impulso ao chegar em casa no final do meu plantão do dia xxx

Querido Luciano,
Ainda não te conheço,
Espero que eu possa te conhecer logo. Mas o pouco que conheço da sua história, do seu pai e da sua mãe, são suficientes para que eu tenha grande admiração pela sua família. Eu não consiguiria te separar da sua família, apesar de todas histórias de superação suas, tenho certeza que em boa parte delas (se não em todas), a sua energia para a superação nasceu do Amor que você sempre encontrou em casa, no olhar da sua mãe, no voz tranquila do seu pai, na companhia da sua irmã. Penso muito em você nestes últimos dias, em várias situações. Penso nos momentos de dificuldade, nos momentos de alelgria, nas vitórias, nas situações simples que você viveu, nas alegrias que proporcionou a sua volta, no exemplo que você deu. Sua marca já está registrada. Seu nome já está escrito na história de muita gente, e já está escrito na minha memória.
Recentemente, em homenagem a um paciente que gosto muito, decidi que promoveria anualmente o dia deste paciente, e que na minha intimidade, ou até com outras pessoas, anualmente, naquele dia eu me lembraria dele, das palavras e gestos dele, e me alegraria com o sorriso e a sabedoria dele, mantendo aquele espírito de luz, a energia de Deus que fluia através da vida dele, acesos na minha mente. E em homenagem a ele, do meu modo, eu tentaria “imitar” a sua sabedoria, seguir os seus passos e pensar e agir como ele.
Agora, que te conheci, e te admiro, não farei diferente. Vou eleger o começo da Primavera como a temporada para celebrar o seu exemplo. Você estará sempre vivo em meu coração, em minhas palavras, nas minhas ações, na minha alegria de viver. Sou uma pessoa privilegiada por ter tido a oportunidade de conviver com você. Por conhecer o seu pai e a sua mãe. Um espírito de Luz como você não poderia ter nascido em berço mais abençoado.
Aonde quer que você esteja, sei que está entre nós. A sua energia não está perdida, pelo contrário, ela está se multiplicando em cada sorriso que você deixou, em cada nota musical que você tocou, em cada respiração, em cada passo, em cada pessoa que foi tocada pelo seu olhar ou pela sua história. Obrigado, pelo tanto que aprendi neste breve momento de convivência que tivemos. Que Deus me dê sabedoria, discernimento e Amor, para que eu possa levar um pouco de você aos que eu encontrar no caminho.
Portanto, independentemente do que venha a acontecer com você, hoje (dia xxx) já é para mim um motivo de imensa alegria: agradeço a Deus por ter feito o meu caminho cruzar com o seu. Agradeço aos seus pais por terem te gerado.
De um amigo, 

Assinado, médico Dr. X.


DEPOIMENTO II
Sr. Orlando, Sissi e Priscila,
Demorei escrever por não conseguir mesmo encontrar as palavras corretas e não sei se as tenho ainda. Conheci o Luciano recentemente, mas a sensação é de que o conhecia desde a infância. Aprendi rapidamente a respeitar sua história de vida e sempre tive o entendimento que estar no lugar dele não devia ser fácil, pois como ele mesmo dizia " vivo em hospital desde os 8 anos de idade". Desta forma, tentei ser médico e amigo, tentei entender os abandonos, os momentos de ira e revolta, que logo, com a presença de Deus tão marcante nesta família, fazíamos o que era preciso de modo sereno.
Desde que fui para SP com vocês, não deixei de pensar ou torcer para dar tudo certo. Voltei com a sensação que seria difícil, mas não impossível. Acordo desde terça imaginando que não é verdade tudo o que aconteceu. Tinha combinado de comer uma "japa" ou tomar umas cervejas especiais e eu ainda estava esperando este dia, até terça. Já li o blog, o twitter, a reportagem do Diário da Manhã, mas ainda não acredito.
Não sei explicar, mas vocês são muito especiais. Nunca vi um momento de revolta, um deslize de gentilezas ou o desespero. Me sentia pequeno diante de tanta dificuldade, e quando olhava para vocês, estavam lá, calmos, dizendo que Deus reserva o melhor para cada filho.
Na quarta a noite estava muito triste e conversando com minha esposa sobre minha especialidade. Eu sempre digo a ela que o dia que não ficar triste ou chorar por uma paciente que se foi, abandonarei a profissão. Ela me disse que isso era um sinal que eu deveria me aproximar mais de Deus e neste instante lembrei-me do senhor com a história da enfermeira. Contei a ela que pratico a caridade, a busca da melhoria da assistência para aqueles que não tem condições sócio-econômicas, pois 80% do meu tempo são para pacientes que necessitam de apoio e não tem ninguém por eles. Brigo por direitos, peço doações, tento usar o que há de novo e etc. Quando acabei de dizer, ela me falou que só isso não era suficiente, mas que precisava de Deus mais presente em nossas vidas e que o que eu fazia devo continuar fazendo, pois isso é uma missão. Diante disso, hoje pela manha vi 9 pacientes internados com leucemia ou linfoma. Pedi a cada uma deles fé e esperança nesta caminhada do tratamento e que se entregassem aos designos de Deus. De alguma forma, Luciano e vocês me mostraram um caminho, uma luz, me mostraram Deus presente em nossas vidas. Eu só posso agradecer a vocês.
O Luciano me ensinou também a lutar, ter esperança e fé. Ensinou-me também o amor ao próximo, pois com ele exerci com todas as forças, desejando vê-lo bem.
Como pai, doeu meu coração ver o Sr. Orlando e a Sissi tão tristes, mas lá novamente estavam vocês, serenos, dizendo que a missão estava cumprida e que Deus sabia o que era melhor.
Vivo um dia a dia difícil, de perdas e vitórias, mas queria ter vencido com vocês. Sinto muito!!!
Desculpe se o texto soa confuso, mas não contive as lagrimas e achei que devia responder hoje.
Desejo o melhor da vida pra vocês.

Assinado, médico Dr. Y.


DEPOIMENTO III 
Sissi e Orlando,
Posso imaginar a dor que estão sentindo pela falta do Lulu, e no momento só tenho a dizer FORÇA!!! Em mim também está doendo muito, não consigo parar de pensar e não consigo acreditar que isso está acontecendo. O meu maior desejo é que tudo isso não passasse de um sonho. Busco força e explicação em Deus.
O Lulu (como a nossa turma de Medicina o chamava) vai fazer muita falta, nosso guerreiro, nosso maior exemplo de força e determinismo se foi e deixou em nós um grande vazio, vazio este que nunca conseguirá ser ocupado por ninguém. Nosso guerreiro é único, e suas qualidades também eram. A turma X está inconformada.
Não sei se isso os conforta, mas quero dizer a vocês que o Lulu perdeu uma batalha, porém venceu uma guerra. E, infelizmente Deus achou que era o momento do nosso guerreiro descansar após tantas batalhas.
Digo aos meus amigos e colegas, que o Lulu era tão grande que não cabia apenas em um coração, e sim nos corações de cada pessoa que o conhecia.
Quero aproveitar o momento para parabenizá-los pela educação que deram ao filho de vocês. Um menino com muita fé e dedicação. Tenho que destacar uma característica do Lulu que para mim se tornou um exemplo a ser seguido, mesmo com toda boa condição financeira que ele tinha era muito belo ver o carinho e a humildade dele ao tratar as pessoas com quem conversavamos no postinho de saúde. Foi pouco o nosso tempo de convivência, mas posso agradecer a Deus, pois foi um tempo bom, cheio de aprendizado e de alegrias.
Saibam que quando a nossa turma formar, o Lulu também estará formando, pois ele mora no coração de cada pessoa da nossa turma. A presença de vocês no dia será indispensável.
O nosso Lulu se foi cedo, porém cumpriu sua missão aqui na terra, ao distribuir carinho, simpatia, companheirismo e muito ensino.
O Lulu será um amigo que nunca esquecerei, nem o tempo conseguirá apagá-lo da minha memória.
Precisava mostrar a vocês o quanto o Luciano é querido e dizer que busquem primeiro em Deus o conforto, porém se precisarem desabafar ou quando a saudade bater, podem buscar em nós, amigos dele, o conforto e o carinho que precisarem.
Que Deus os abençoe e conforte!!! 

Com carinho: Assinado, colega .... de faculdade.


DEPOIMENTO IV
Sissi e Orlando,
Infelizmente tive esta notícia, mas com certeza ele está indo para um lugar próximo de Deus Todo Poderoso. Com vocês aprendi muitas coisas, mas a mais importante foi “lutar sempre” e nunca perder as esperanças.
Vocês ficaram todos estes dias neste cubículo, dormindo, acordando, rezando pelo bem do Luciano, ouvindo todos estes alarmes de diálise, bombas, ventiladores... Esta força maior foi dada por Deus, vocês sabem disso.
Não posso imaginar a dor imensa que estão sentindo, deve ser algo incalculável. Nunca me comovi tanto nestes 6 anos aqui no Einstein, e nunca me comovi com familiares tão preciosos quanto vocês.
Obrigada por me ensinarem a realmente viver.
Um beijo, 

Assinado, Fisioterapeuta X


DEPOIMENTO V
Sissi e Orlando,
A impressão que em geral as pessoas tem é de que o médico é um ser técnico e que não se envolve sentimentalmente. A decisão do que melhor fazer realmente não deve ser sentimental, mas técnica. É impossível não se involver com qualquer sofrimento humano quando ela esta diante de você. Aprendi que a partir do momento que você não esta apto mais a ter este sentimento pelo próximo, mude profissão, pois a vida é dom sagrado e deve ser preservada a qualquer custo. A forma como o Luciano luta e não se entrega é instigante e admiravel, obra de Deus.
O filho de vocês tem qualidades como jamais vi, desde ser um bom filho, bom atleta, mas muito mais do que isso, um filho de Deus que luta, acredita e não se entrega. Jamais vi uma família unida desta forma e acredito ser isso, uma obra divina, para suportar tamanho sofrimento diante de um filho enfermo.
Um abraço de quem os admira muito. 

Assinado, Médico Dr. Z.


DEPOIMENTO VI 
Queridíssimos amigos Sissi e Orlando,
Recebi a notícia da partida do Luciano com muita tristeza. Demorei propositadamente para escrever-lhes, para não parecer inoportuno. Gostaria apenas, de dizer que o Luciano será lembrado por mim, e por todos que tiveram a feliz oportunidade de conhecê-lo não só com saudade, mas como exemplo de como podemos nos tornar pessoas melhores, e maiores que nós mesmos. Pessoas como ele, não pertencem à matéria, e sim a outra dimensão. Têm de flutuar.
Um beijo carinhoso e solidário, 

Assinado, Médico Dr. W.


DEPOIMENTO VII 
Pra que, mesmo?
A Pedro, Luciano e seus pais
Nos últimos tempos, a intervalos infelizmente pequenos, testemunhei a força e a coragem com que casais amigos enfrentaram o que há de mais terrível, a perda de um filho. Embora eu tenha filhos, não acho que seja preciso tê-los para compartilhar a enorme dor que esses pais sentem. Ainda assim jamais seremos capazes de alcançar essa dor em sua plenitude.
Momentos assim nos fazem refletir. O que respondo pra minha caçula, quando me pergunta onde está Pedro, o irmãozinho de sua amiguinha? Os leitores que me acompanham sabem que sou um crente (no sentido amplo da palavra) hesitante. Nessa hora, porém, agarro-me à convicção de que Pedro, como o Pequeno Príncipe, está numa estrelinha lá no céu, num planetinha só pra ele, brincando como sempre. Dessa forma consigo convencê-la e a mim mesmo, aplacando um pouco a angústia. Mas sigo refletindo.
Quando uma pessoa é recomendada demais costumamos ficar desconfiados. Assim foi com Luciano, antes de se tornar meu aluno, calouro de Medicina na PUC-GO. Meu irmão e um colega, que conviveram com ele em sua empresa, na qual foi estagiário, me diziam: "É uma pessoa extremamente competente e educada. Afável, carismático, você verá." Meus pais, por sua vez: "É um menino bom, de uma família amiga, cuide bem dele." E todos: "É um guerreiro, brigou com o câncer por diversas vezes e venceu."
Então, quando o "menino bom" chegou a minha classe, precisei de pouco tempo pra perceber que todos diziam a verdade. De fato, tratava-se de uma pessoa afável, inteligente, carismática a ponto de rapidamente ganhar a turma. Via-se nele um caminho recheado de sucessos. Secretamente, eu torcia para que escolhesse a mais nobre das especialidades médicas (oftalmologia, obviamente), embora soubesse que as chances eram reduzidas, em face da concorrência da oncologia. Luciano era dessas pessoas que não ficam satisfeitas em vencer uma batalha contra um inimigo difícil. Ele partiria pra cima, para, quem sabe, ajudar outras pessoas a não passarem pelo que passou.
Sigo refletindo. A rotina e os reveses da profissão, muitos deles nada tendo a ver diretamente com a medicina (burocracia excessiva dos convênios, descaso de governos, brigas por banquinhos de poder e mais uma infinidade que não cabe aqui citar), nos fazem por vezes esquecer por que foi mesmo que decidimos ser médicos. Algumas coisas nos ajudam a lembrar, como quando somos presenteados com um sorriso agradecido de um paciente. No meu caso, todo início de semestre letivo sou lembrado por meus alunos e suas respostas à minha pergunta: por que você quer ser médico? Vejo em cada um deles um pedaço do que fui e me esforço por não deixar de ser.
Pedro e Luciano, a seu modo, também me fazem lembrar por que decidi ser médico. 

Flávio Paranhos (Médico e Professor do Curso de Medicina da PUC-GO)
Publicado na coluna Crônicas e Outras Histórias do Jonal O Popular em 26/Set/2010