ELEJA A PRIMAVERA COMO A TEMPORADA PARA CELEBRAR UM GRANDE EXEMPLO.

Se não tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável;
se não  experimentássemos algumas vezes o sabor da adversidade,
a prosperidade não seria tão bem-vinda.
Anne Bradstreet.
- flores do nosso jardim -
Era dia 21 de setembro, somente dois dias precediam o início da primavera, o vento soprava lá fora de maneira desorientada de um lado para o outro sem nenhum sentido orientado, mas uma coisa era certa, ele anunciava a despedida de um período cinzento e frio que era o inverno.

Naquele mesmo tempo, estávamos confinados por quase 90 dias dentro de um quarto de hospital, uma verdadeira redoma, livre das impurezas e vulnerabilidades que o mundo põe contra nossa saúde. A temperatura lá dentro era sempre 20 graus Celsius, o ar puro e superfiltrado que respirávamos, e a alta pressão atmosférica interna, criava naquele ambiente uma grande sensação de conforto e segurança, mas ao mesmo tempo, nos distanciava do tão desejado contato com a natureza. A fotofobia causada ao Luciano pelos quimioterápicos, fazia com que mantivéssemos a persiana das janelas quase o todo tempo fechada, nos desnorteando em relação à noção de tempo.

- flores do nosso jardim -
Era dia 21, e o anuncio da chegada da primavera premeditava o toque colorido e perfumado que trariam as rosas, girassóis, margaridas, orquídeas, jasmins, hortênsias, helicônias, alamandas, gérberas, hibiscos, bocas-de-leão, crisântemos, marias-sem-vergonhas, violetas, damas-da-noites, até as flores que a Sissi cultiva lá em nosso jardim de casa. Além desta beleza que as flores prometiam trazer, a certeza que também ele iria em seguida dar lugar a um fruto e semente, nos fazia entender também que no ano seguinte viria uma outra flor, não mais a mesma.

Mas não,... as coisas se complicaram, e estávamos dentro da UTI com o Luciano, e sua situação estava muito agravada.  Contudo, a nós, restava a fé e esperança de que em breve, em uma data futura próxima, mas incerta, estaríamos em meio a todo aquele festival de alegria e vida que a natureza haveria de nos contemplar. Era como se tivesse apenas uma única linha o amarrando a nós, e esta linha era nossa fé, bem menor do que um grão de mostarda, mas o suficiente para que Deus em sua infinita misericórdia o deixasse “um pouquinho mais juntinho de nós”.  E ele ficou, ... ficou um pouco mais, o suficiente para mesmo sem nenhuma manifestação, mas como se ele tivesse ainda que cumprir uma missão, como disse o Pastor Paulo Jr, agindo como um "Profeta de Deus de sua geração", continuava ensinando a todos que o rodeavam, ou até mesmo para aqueles que mesmo sem o conhecer, mas que ficavam sabendo de seu testemunho e lição de vida, que o poder da superação de nossos limites está à nossa disposição, dentro de cada um, devendo apenas buscar a sua chave com Deus.

Mais um dia nascia, era dia 21, e como em todo amanhecer, nossas esperanças são reanimadas, as forças renovadas, e assim também nossas motivações para se continuar vivendo. Maria, enfermeira-chefe da UTI chegou bem cedo, até parece que veio de carona com o primeiro brilho de sol, e trazia junto com ela uma grande euforia para nos contar um sonho que tivera com o Luciano naquela noite. No sonho, ela via que Luciano olhava através de uma grande janela de vidro uma belíssima paisagem florída, e ao mesmo tempo pedia que Maria o deixasse sair para andar naquele jardim. Maria com muita pena, disse que de maneira nenhuma ele poderia sair, por não ter condições imunológicas suficiente para se defender dos microorganismos externos, explicando ainda que o que lhe parecia belo, poderia ser a ele nocivo. Mas Luciano insistia no seu pedido. Para quem o conheceu, sabia que a insistência era uma de suas características pessoais, o que nos fazia, na intimidade, o chamar de "pinhé" quando queria alguma coisa. E quando dissemos a Maria sobre esta sua maneira de ser, achou muito interessante, porque segundo ela, foi exatamente daquela maneira que ele agiu. Ele insistia de toda forma, tentando inclusive negociar com ela a permissão para ao menos abrir uma frestinha da janela, o permitindo assim que colocasse então só o rosto fora para que sentisse o ar e cheiro externo. Naquele momento nós a interrompemos com nossa emoção, porque sabíamos de sua grande vontade, depois de tanto tempo e sofrimento, em sair do hospital, dizendo..."só queria sair para sentir o ar e o cheiro da rua". E Maria continuou dizendo que ele insistiu muito para que ela a deixasse sair, mas ela razão de sua responsabilidade teve de manter sua negativa. Ela continuou seu relato, e disse que surpreendentemente, em um piscar de seus olhos, Luciano havia desaparecido da sua vista, e quando ela o descobriu, ele já estava lá fora, muito alegre correndo pelo jardim. Naquele momento houve novamente um transbordo de nossas emoções, e em meio a muitas lágrimas, dissemos, se era isto que ele queria, e o deixaria feliz como ela mesma o viu, .....foi então Deus que o permitiu sair. Mas era apenas um sonho. Mas junto com este sonho, veio também o que disse Deus através de seu profeta Jeremias: Então foi aberta uma brecha na cidade, e todos os homens de guerra fugiram, e saíram da cidade de noite, pelo caminho da porta entre os dois muros, a qual estava perto do jardim do rei (porque os caldeus cercavam a cidade ao redor), e foram pelo caminho da campina. Jeremias 52:7

Sonho a parte, voltemos à realidade, mas que realidade era esta? - A dura realidade do Luciano deitado em um leito de UTI, totalmente ligado e dependente de máquinas, tubos, medicamentos, e profissionais, que para nós, eram como anjos. Para quem conhecia Luciano, sabia o quanto era difícil o ver daquela forma, ...porque ele sempre foi um símbolo de vida, alegria, e energia. Entretanto, se for pensar bem, o que estava acontecendo não era de tudo fora da realidade que sempre viveu, .. porque lutou 15 anos contra um câncer,... um? ... que nada! contra quatro, mas sem perder a pose, cantou, ou tocou seu violino, violão ou gaita, correu, nadou, ou pedalou em suas maratonas de triátlon Brasil e mundo afora, baladou, namorou (ô, e se...), e se realizou no tão sonhando curso de medicina. E lá estava Luciano, em um sono profundo, acreditamos que ele devia mesmo era estar sonhando com aquele jardim, e já não estava aguentando mais aquele marasmo e sofrimento, e tudo já bastava.

Pois bem, o grande projeto de Deus parecia estar sendo concluído, pois no meio daquela manhã do dia 21, prenúncio da chegada da primavera, coincidência ou não, coisas que até os sonhos da querida Maria anunciou, Luciano resolveu, junto com Aquele que sempre esteve ao seu lado, nos deixar, e saindo de uma vez por todas em liberdade total pelo tão desejado jardim onde a primavera nunca acabaria. Assim, Isaías, outro profeta de Deus disse: Porque o SENHOR consolará a Sião; consolará a todos os seus lugares assolados, e fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão como o jardim do SENHOR; gozo e alegria se acharão nela, ação de graças, e voz de melodia. Isaías 51:3.

Aquele momento de sua passagem, apesar de extremo em nossas vidas, quando em meio a muita dor pela despedida, tínhamos o consolo de que sua saída para aquele jardim foi o melhor para ele. Tivemos forças para orar e louvar a Deus, pela bênção que foi nos ter emprestado aquele filho, tão cheio de vida, mas que chegara o momento de o devolver a Deus para que juntos pudessem, livre de toda dor e sofrimento, gozar a Primavera Celestial.

Para nós que ficamos resta suas lembranças e a saudade, que apesar de doer fundo, faz com que cada lágrima derramada em sua memória sirva para regar as flores, seu símbolo vivo em nossas vidas.

Afinal, o que tem a ver Luciano e Primavera? Neste momento Tudo!
E assim dizemos como o poeta português, Alberto Caeiro escreveu...

“Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera fosse gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
- flores do nosso jardim -
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores voltam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada volta, nada se repete, porque tudo é real.”

Para terminar, e como homenagem por este um ano que agora completa desde a partida do Luciano, gostaríamos de deixar a mensagem escrita em uma das cartas que recebemos naquela época, a qual foi anexada à postagem de 26 de setembro de 2010, com o título A VIDA APESAR DOS PROBLEMAS TEM QUE SER VALORIZADA E VIVIDA DA FORMA COMO É, TORNANDO-A "A VIDA". Esta carta foi escrita por um dos médicos que acompanhou Luciano durante sua estada na UTI, que infelizmente não tiveram a mútua oportunidade de conhecer um ao outro, mas que mesmo sem nenhuma ação aparente, Luciano foi capaz de o impactar.
E assim ele escreveu...
“envio o que escrevi de impulso ao chegar em casa no final do meu plantão do dia tal,
- Querido Luciano,
Ainda não te conheço,
Espero que eu possa te conhecer logo. Mas o pouco que conheço da sua história, do seu pai e da sua mãe, são suficientes para que eu tenha grande admiração pela sua família. Eu não conseguiria te separar da sua família, apesar de todas as histórias de superação suas, tenho certeza que em boa parte delas (se não em todas), a sua energia para a superação nasceu do Amor que você sempre encontrou em casa, no olhar da sua mãe, na voz tranquila do seu pai, na companhia da sua irmã. Penso muito em você nestes últimos dias, em várias situações. Penso nos momentos de dificuldade, nos momentos de alegria, nas vitórias, nas situações simples que você viveu, nas alegrias que proporcionou a sua volta, no exemplo que você deu. Sua marca já está registrada. Seu nome já está escrito na história de muita gente, e já está escrito na minha memória.
Recentemente, em homenagem a um paciente que gosto muito, decidi que promoveria anualmente o dia deste paciente, e que na minha intimidade, ou até com outras pessoas, anualmente, naquele dia eu me lembraria dele, das palavras e gestos dele, e me alegraria com o sorriso e a sabedoria dele, mantendo aquele espírito de luz, a energia de Deus que fluia através da vida dele, acesos na minha mente. E em homenagem a ele, do meu modo, eu tentaria “imitar” a sua sabedoria, seguir os seus passos e pensar e agir como ele.
Agora, que te conheci, e te admiro, não farei diferente. Vou eleger o começo da Primavera como a temporada para celebrar o seu exemplo. Você estará sempre vivo em meu coração, em minhas palavras, nas minhas ações, na minha alegria de viver. Sou uma pessoa privilegiada por ter tido a oportunidade de conviver com você. Por conhecer o seu pai e a sua mãe. Um espírito de Luz como você não poderia ter nascido em berço mais abençoado.
Aonde quer que você esteja, sei que está entre nós. A sua energia não está perdida, pelo contrário, ela está se multiplicando em cada sorriso que você deixou, em cada nota musical que você tocou, em cada respiração, em cada passo, em cada pessoa que foi tocada pelo seu olhar ou pela sua história. Obrigado, pelo tanto que aprendi neste breve momento de convivência que tivemos. Que Deus me dê sabedoria, discernimento e Amor, para que eu possa levar um pouco de você aos que eu encontrar no caminho.
Portanto, independentemente do que venha a acontecer com você, hoje (dia xxx) já é para mim um motivo de imensa alegria: agradeço a Deus por ter feito o meu caminho cruzar com o seu. Agradeço aos seus pais por terem te gerado.
De um amigo,
Eduardo Correa Meyer, Dr.

Então, vamos fazer o uso das palavras do Dr. Eduardo e assim, eleger o começo da Primavera como a temporada para celebrar um bom exemplo, pois este pode ser como uma flor, que não voltará a mesma.