É QUANDO ESTOU FRACO, ENTÃO É QUE SOU FORTE

O ser humano por natureza se acha demais, pensa que é grande coisa, quer ser reconhecido pelo que é e possui, desejando somente glórias para si próprio. Entretanto quando erra, ou passa por alguma dificuldade percebe o quão é limitado, frágil, e indigno.

O fato de sermos filhos de Deus não nos impede de enfrentar situações de dificuldades, tristezas e dor. Quando me encontro diante de uma destas situações onde minha fé provada, podendo me vacilar, gosto de lembrar que as personalidades e autores da Bíblia, também experimentaram lutas e provações como as minhas, às vezes até maiores ainda. Um deles foi Paulo, o Apóstolo Paulo, que em seus livros, sem um pingo de auto-piedade falou de suas lutas e fraquezas, “Cinco vezes recebi dos judeus trinta e nove açoites. Três vezes fui golpeado com varas, uma vez apedrejado, três vezes sofri naufrágio, passei uma noite e um dia exposto à fúria do mar. Estive continuamente viajando de uma parte a outra, enfrentei perigos nos rios, perigos de assaltantes, perigos no deserto, perigos no mar, e perigos dos falsos irmãos. Trabalhei arduamente, muitas vezes fiquei sem dormir, passei fome e sede, e muitas vezes fiquei em jejum; suportei frio e nudez” (2 Coríntios 11:24-27). Disse ainda, “...eu recebi uma doença dolorosa, que é como um espinho no meu corpo. Ela veio como um mensageiro do mal para me dar bofetadas e impedir que eu ficasse orgulhoso. Três vezes orei ao Senhor, pedindo que ele me tirasse esse sofrimento. Mas ele me respondeu: A minha graça é tudo o que você precisa, pois o meu poder é mais forte quando você está fraco. Portanto, eu me sinto muito feliz em me gabar das minhas fraquezas, para que assim a proteção do poder de Cristo esteja comigo. Eu me alegro também com as fraquezas, os insultos, os sofrimentos, as perseguições e as dificuldades pelos quais passo por causa de Cristo. Porque, quando perco toda a minha força, então tenho a força de Cristo em mim”. (2 Coríntios 12:7-10). E depois de tudo isto ainda disse: “Porque quando estou fraco, então é que sou forte.”  E Jó..., Jó foi um servo de Deus, homem integro, de muitas posses, e sua fé foi colocada em prova, perdeu tudo que tinha, amigos, bens, e até a saúde, entretanto se mostrou fiel até o fim, e disse assim: “ - Nasci nú, sem nada, e sem nada vou morrer. O Senhor deu, o Senhor tirou; louvado seja o seu nome!”.  Assim, apesar de tudo o que havia acontecido, Jó não pecou, nem pôs a culpa em Deus. (Jó 1:21-21).

Isto tudo pode parecer utópico, primeiro admitir que temos e sempre teremos problemas, segundo, que somos por natureza fracos, e por final, dizer que quando estamos em dificuldades, vivendo em uma condição de fraqueza, aí é que somos fortes, pois bem, isto é verdadeiramente real, e depende só de cada um.

Luciano foi uma prova viva disto tudo... quem o conheceu pôde presenciar o menino, logo em seguida um adolescente, e por final um jovem adulto, ser tocado profunda e dolorosamente no seu físico, sofrer seguidas decepções, ter que fazer escolhas e aceitar situações que só poderiam gerar tristeza e revolta, mas que ao contrário e a despeito de tudo, viveu esta vida, - e que vida ! -, com muita dignidade, determinação, e com um belo sorriso no rosto.

Dizer que durante os 15 anos de luta do Luciano contra o câncer estivemos sempre descansados, sentados tranquilamente confiando e aguardando sua cura como se viesse em forma de uma poção mágica, seria uma mentira. Encaramos toda aquela situação como um desafio, e como tal só nos restava ir a luta, sabendo que Deus segundo sua misericórdia se mostraria presente em nossa caminhada em busca da cura, nos dando tranqüilidade para ajudar o Luciano se manter “firme e forte” até o fim. A agressividade física causada pelo câncer é algo temido só de ouvir o nome da doença, mas que poderia ser tratado com medicamentos e cirurgias, entretanto as conseqüências psíquicas e emocionais eram as que mais nos preocupavam, porque sabíamos que estas tendem chegar traiçoeira e silenciosamente, e não são palpáveis. Luciano, quando do seu primeiro câncer aos oito anos de idade, e os médicos preocupados com o impacto físico e emocional que a doença certamente traria, lhe foi indicado um acompanhamento psicológico, e ele tão criança, mas com sua opinião formada já dizia: “ - não preciso disso, meu psicólogo é Deus e minha mãe”.  Realmente... ele passou por tudo como um exemplo de vida e autocontrole, além de transmitir sua postura positiva aos que estavam ao seu redor, deu testemunhos da presença de Deus em sua vida em diversas situações, tais como reuniões, entrevistas a jornais, revistas, e matérias de telejornais, fez até uma palestra no MD Anderson, em Houston, Texas para atletas que iriam pedalar 4.000 milhas, do Texas ao Alaska, em busca de doações para o tratamento e pesquisa do câncer (acesse www.texas4000.org ), enfim lançou mão de todos os recursos que lhe era disponível para dizer que apesar de tudo ele era forte e buscava a superação.

Para terminar, gostaria de ilustrar este texto com uma das passagens que tive o previlégio de  estar junto do Luciano: - No mês de junho do ano passado, aconteceria a festa junina da escola da Priscila, o que coincidiu com uma época em que suas condições físicas já estavam bem abaladas, contudo, ele como sempre procurando não se abater, nem mesmo deixar sequer um minuto da vida passar despercebido, fez questão de estar presente nesta tão esperada comemoração que sua irmã iria participar como sendo a última, de sua turma do WR. Pois bem, chegando o dia da festa, e ele não estava bem, porque sua medula já o impedia de manter-se com um mínimo de qualidade de vida, e que ao mesmo tempo se recuperava de um episódio de cor anêmico, o que lhe quase fôra fatal, entretanto ele queria ir a festa. Chegado o dia, ele combinou com o médico que queria estar bem para ir à festa junto com a família, assim como ele dizia “deu uma turbinada”,  lhe sendo transfundido duas bolsas de sangue e uma de plaqueta. Agora, diante de tudo que vinha sofrendo com a doença, imagine como estava seu estado físico e emocional, e para completar, naquele dia a fraqueza e mal estar foi potencializada pela medicação pré-transfusão, entretanto tudo foi feito para que ele pudesse ir a festa. Quase na hora de sair, enquanto a Sissi, Priscila e Bruna terminavam de se aprontar, eu os esperavam sentado na banqueta, debruçado sobre o balcão da cozinha, refletido sobre a situação do Luciano, preocupado com o estágio em que a doença se encontrava, e mais ainda porque naquele dia ele passara o dia todo triste, calado, e pensativo, comportamento este totalmente atípico. Derrepente e silenciosamente, entra com passos fortes pela porta da cozinha aquele elegante e belo rapaz, como sempre de costume, muito bem arrumado, combinando tudo, a cor, o tecido, e modelo da roupa, do sapato, ao blazer, impecável, o perfume exalava uma marcação de território, o gel espalhado por seu cabelo o fazia parecer aqueles atores no dia da festa do Oscar, sua pele pálida transformava a cor anêmica na impressão de uma bela maquiagem, e ele sentou do meu lado. No mesmo momento em que eu estava chorando por dentro tentando imaginar o sofrimento que meu filho vinha sofrendo, ao ver aquela bela figura, e com toda imponência, eu me recompus e pensei: este é o Luciano mesmo!  Ele então quebrou meu silêncio dizendo que estava com febre e iria tomar uma dipirona, e levaria mais uma em seu bolso caso a febre voltasse, e permanceu sentado ao meu lado, calado por um tempo... para em seguida dizer o que eu todo tempo não quis ouvir: “- é pai,... acho que desta vez a depressão me pegou”. Minha reação foi muito rápida, porque ao mesmo tempo que me assustei com sua afrimativa, pensei e disse a ele: “- quem dera todo deprimido estivesse tão bonito e cheiroso como você está, fazendo planos como faz, tendo naquele dia sido submetido a tanta coisa, só para poder ir para uma festa”, e completei dizendo: “- é este que é seu diferencial, e que chama a atenção de todos, você não se abate com nada”, e terminei levando a ele uma palavra profética e que Deus fazia se cumprir na vida dele: “- olha Luciano a postura do apóstolo Paulo não foi uma exclusividade dele, porque você tem dito com sua postura o mesmo que ele disse - quando estou fraco, então é que sou forte – e sua força e fé em Deus tem se aperfeiçoado diante de seus momentos de fraqueza”, e ele respondeu: “ - .. então vamos para festa!!!”.