ATÉ QUANDO? … E PORQUE?

Luciano nos deixou.... e agora chorando de saudade, mas ao mesmo tempo motivado por ter conseguido acessar (como editor) seu blog, instrumento que ele usava, que creio que seja um ministério Divino a ele delegado para mostrar as pessoas sobre o poder que Deus exerce nas pessoas quando se crê em seu mover, tanto nos momentos de alegria. quanto nos de angústia e dor.

O texto abaixo foi escrito por nós (eu e Sissi), e enviado por e-mail a algumas pessoas que o acompanhavam a distância, no dia 12 de setembro, dia em que Luciano ainda se encontrava na UTI.
Que Deus possa falar com cada um que neste site visitar.

"Até quando?” ... 
“ e Por quê?”... 
Nossas vidas são compostas por ciclos, com inicio, meio e fim, os quais fazem parte de um grande ciclo que é a vida. Aprendi no decorrer da minha vida, em meio de adversidades, que todos nós, sem nenhuma exceção que em algum momento, teríamos problemas.

Pois bem, se sabemos que teremos problemas, quando estivermos diante dele não devemos o ficar remoendo, mas sim enfrentá-lo de frente, seja o tamanho que seja, buscando todas as forças que temos física, emocional, mas sobretudo em Deus, que é a força espiritual, e dai viver a solução deste problema. Viver um problema, murmurando, triste, depressivo, revoltado, é uma atitude negativa que além de não resolvê-lo, o agravará, entretanto, se viver esta situação buscando intensamente uma solução, humildemente mas com bravura, esta sim é uma postura de confiança e positiva. Mesmo sendo este problema de difícil solução, não se mantenha na defesa, vá a luta e nunca abaixe a guarda, você vencerá! 

Agora eu respondo a pergunta, Até Quando, - "Até quando nos estivermos vivo NESTA vida". Lembre-se que Deus disse: "neste mundo tereis tribulação...", portanto cacetadas mais fortes ou mais fracas com certeza virão,... e ELE continuou, "mas tende bom animo EU venci", portanto, estejais pronto para contra-atacar... Até quando... enquanto estivermos vivendo, porque temos a certeza da vitória. “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; porque no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” João 16:33. E Por quê?, o porquê é um mistério, e plano do Pai, embora não consiga compreender, uma coisa é certa, o plano é de Deus, e em TUA mão sempre confiarei. O mistério de Deus não significa algo que é incompreensível para seus filhos, mas, tão somente, algo que é incompreensível para aqueles a quem Deus não dá sabedoria e discernimento e compreensível para aqueles a quem o dá. “...que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo” Efésios 1.8,9

60 dias dentro de um pequeno cômodo pode levar um ser humano a loucura. 60 dias dentro de um quarto de hospital, pode levar uma pessoa a crises emocionais importantes, tipo, depressão, ansiedade, angustia, irritabilidade, e 60 dias dentro de um quarto de hospital, em regime de isolamento, acompanhando um filho acometido por uma doença grave, que o tratamento além de doloroso, e impõe grandes riscos? - sem comentários.... pode ser uma loucura. E como agüentar tudo isto, bem,.... por uma ótica racional nós sentimos como se tivéssemos um antígeno para todos estes sentimentos e reações. As pessoas que nos assistem, questionam sobre nosso cançasso, e até nós nos surpreendemos com nossa força. Acostumo dizer que temos em nós uma ogiva nuclear, com uma diferença, nossa fonte de energia não é urânio, mas o Espírito Santo de Deus, “Não haverá entre eles cansado, nem quem tropece; ninguém tosquenejará, nem dormirá; não se lhe desatará o cinto dos seus lombos, nem se lhe quebrará a correia dos seus sapatos.” Isaías 5:27, portanto estamos firmes na promessa. Estes 60 dias de internação fez parte do processo para o transplante de medula óssea, tido como um dos mais complexos procedimentos médicos, no qual envolve todo o organismo, da citogenética, ao coração, da pele, ao psicológico, do cabelo ao coração. Depois das altíssimas doses de quimioterápicos capazes de destruir toda medula doente, foi um verdadeiro exercício de paciência, onde a debilitação física era enorme, e nada tinha para se fazer senão esperar, sem saber quanto tempo, o organismo se refazer “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, E a paciência a experiência, e a experiência a esperança” Romanos 5:3-4. Foi uma grande demonstração de humildade e dependência de outro ser humano, não só dos médicos e enfermeiros diretamente ligados no processo, mas principalmente daquele que nunca se viu, daquele que deliberadamente doou parte de seu corpo para salvar outro desconhecido, como prova do verdadeiro ato de amor, que no caso foi a doação de sangue e plaquetas, sangue este que era transfundido diariamente, assim como a água que se tomava. E ele venceu esta etapa, a medula transplantada nele achou aconchego, fazendo morada, e começou a produzir células novas e saudáveis.


Três dias depois da alta da internação dos 60 dias, durante a visita diária ao ambulatório para rotina de manutenção, Luciano teve de se internar novamente. Além de muito inchado, se mostrava com dificuldade de respirar ao ponto de precisar do auxílio de oxigênio. Sua evolução para pior, do momento em que chegou pela manhã até o período da tarde, foi muito rápida, até o ponto de se fazer necessário um suporte respiratório intensivo, justificando assim sua transferência para UTI. 

Luciano, diante desta situação de grande dificuldade para respirar, quando se viu perdendo todas as forças, ele mesmo pediu para que fosse sedado e intubado “Dizendo eu: Consolar-me-á a minha cama; meu leito aliviará a minha ânsia” Jó 7:13. Sua vontade, uma atitude extremamente racional foi atendida, e temos agora temos a convicção que foi acertada e no momento certo. Contudo, logo em seguida, e após observar alguns fatos, pudemos entender que esta não foi somente uma medida calculada por ele, mas sim fruto de uma forte experiência e deliberação de Deus. E o que nos fez certificar que a medida foi na hora certa, foi porque logo após a intubação e ligação do respirador, suas condições de saúde pioraram muito. Uma crise de sepse se manifestou paralisando seus rins, o levando para assim para a maquina de hemodiálise. Entretanto, o fato dele ter sido intubado naquele momento permitiu que muitas manobras e intervenções fossem feitas com antecedência e de maneira pensada a ponto de se evitar maiores complicações (maiores ainda).

O interessante foi descobrir o que levou Luciano a pedir uma medida tão extrema e arriscada como a sedação e intubação, no momento certo. Pois bem, internado na UTI há quatro dias, na manhã em que tudo aconteceu, ele havia se acordado de uma noite muito mal dormida, agoniado e com muita dificuldade de respiração (funcional) e oxigenação (metabólicas), enquanto revezava-se entre um capacete de acrílico que o supria de oxigênio com alta pressão o fazendo respirar a força, e uma simples máscara de oxigênio. A manhã se iniciou e ele naquela luta por uma respiração tranquila e produtiva, estava próximo da exaustão física e emocional. Nosso papel naquela hora, em meio a um sentimento de impotência e angústia, era procurar o manter calmo, permanecendo ao seu lado dando carinho e demonstrando segurança. Mesmo nesta situação, Luciano procurava manter-se calmo, e diante deste comportamento colaborativo, em um determinado momento, buscando acalmar-se enquanto usava aquele incomodo capacete respirador, ele pediu a Sissi seu ipod e fone de ouvido, poe-se a ouvir uma música, mas não durou muito e ele retirou o fone dos ouvidos, devolvendo-o de volta à sua mãe. Logo em seguida a isto, Dr. Nelson Hamershlack entrou em seu quarto, Luciano retirou o capacete, colocou a mascara de oxigênio no rosto para lhe garantir o conforto do oxigênio enquanto conversava, ofegante e com a voz cansada, disse calmamente e em alto e bom tom "Dr. Nelson, quero que o senhor me séde e me intube, porque não estou dando mais conta, tenho a impressão que vou parar (não dar conta de respirar)". Dr. Nelson claramente surpreendeu-se, deixando sua emoção transparecer com o pedido desesperado, e firmemente, respondeu: "isto vai ser muito bom para você, mas me dê um tempo para eu ver como vamos fazer", Luciano mais uma vez disse "então vê isto logo porque não estou mais aguentando". Dr. Nelson mal saiu do quarto, e voltou na companhia do Dr. Elias Knobel, uma das maiores personalidades médicas do Brasil e que se tornou nosso amigo. Pela rapidez que eles voltaram, parecia que ele já estava esperando do lado de fora do quarto. Os dois com toda experiência de vida e profissional, entraram juntos no quarto, e emocionados disseram para o Luciano que a medida a ser tomada seria muito importante para ele, e que só teria a o ajudar. Quiseram explicar como era o processo de intubação, e o Luciano angustiado, prontamente respondeu, que não era preciso explicar, dizendo "eu já ajudei a intubar meu pai em cirurgia que ele se submeteu". Esse é o guerreiro Luciano!, como diz a vovó Scila “meu campeão”. Foi tudo muito rápido, coisas de UTI, em um piscar de olhos, todo material, e todas as pessoas necessárias para o procedimento de sedação e intubação foram posicionados no seu quarto de UTI. Contudo, antes de iniciar os procedimentos, a par dos riscos, e sem saber ao certo quanto tempo o período de sedação iria demorar, sentimos a vontade de entregar publicamente aquela situação para as mãos de Deus. E como Deus já havia previamente colocado a Débora, enfermeira chefe da ala 9 da UTI, como sendo um de seus anjos para cuidar de tudo, então pedi que ela orasse naquele momento pedindo a Deus que abençoasse não somente o Luciano, mas também os procedimentos e profissionais que fossem se envolver no tratamento “Porque está escrito: Mandará aos seus anjos, acerca de ti, que te guardem” Lucas 4:10. E assim foi feito, a graça de Deus encheu aquele quarto, já tão cheio de equipamentos, nos dando a paz necessária para ir em frente.

Já que o Luciano estava se fadigando por falta de força e seu pulmão não conseguia mais aproveitar o oxigênio que respirava, o objetivo principal de tudo, seria descansá-lo, enquanto o respirador fizesse o trabalho por ele, e assim recuperasse. Depois que o Luciano foi sedado e intubado ao contrario das coisas melhorarem, ele só piorou. Eu perguntei, até quando! Naquele momento, chorei muito, não de medo de o Luciano morrer, nem por ele estar sofrendo, porque não estava, mas sim pelo sentimento de carinho, proteção, amor, defesa, e pena de o ver na situação em que ele estava. Tente imaginar e visualizar a cena: eu e a Sissi, o dia todo, a noite inteira, dentro de um quarto, um aquário, observado e monitorado pelos que ficam de fora, frio como uma geladeira, diferentes sons saindo das diversas máquinas, na máquina da diálise, um barulho de uma rodinha que nunca parava, harmonizado por um incansável grilo cantante, o respirador, um agradável som de cachoeira (água caindo) e um sopro de ar constante, um tec-tec sem parar das cinco bombas de infusão, e os monitores, ah sim.. eles não fazem só pi-pi-pi como aqueles que vimos nos filmes de TV, fazem também um ding-dong (sino), no pé de sua cama, uma bomba insuflando ar quente dentro de um cobertor para manter seu corpo aquecido, um motorzinho funcionando um aparelhinho que fica fazendo ar para encher e esvaziar umas polainhas vestidas nas suas pernas para o mantê-las exercitando o tempo todo, e o aparelho de pressão que de tempo em tempo ....tuuuummmm, enche e se esvazia..., quer mais .. a UTI é humanizada, só tem ele no quarto, mas tem um barulho que acontece a cada poucos minutos, 24 horas por dia, que é o abrir e fechar da porta. Para colorir todo este cenário.... todas as máquinas são cheias de luzinhas de cores variadas, e algumas piscando o tempo todo. Tem mais detalhes, mas chega.. E aí vem a pergunta novamente, Até Quando? Até quando não sei, só sei que Deus tem estado presente, nos dando muita força para enfrentar esta batalha com muita dignidade e coragem, ousadia para não baixar a guarda nenhum um minuto sequer, estando em constante postura de ataque. 

Temos vivido uma situação extrema onde o Luciano está em côma induzido, e dizem que ele não vê, não ouve, nem sente nada. É MUITO triste o ver desta forma, mas ele está vivo e apesar de sedado, ele continua lutando, e nós, assim como os médicos, enfermeiros, e fisioterapeutas, todos, continuamos a falar com ele, o incentivando e o respeitando, e o mantemos no comando, fazendo prevalecer sua vontade, quando por exemplo, mesmo sedado, nenhuma manipulação que nele é feita, deixa de ser previamente comunicada. Mais um anjo de Deus apareceu para cuidar do Luciano, e nos animar, Dr. Eduardo Meyer, um grande pneumologista, mas como ser humano.... meu Deus... é de mais! Ele fica alisando a cabeça do Luciano e diz: “Luciano, quero beijar essa sua careca quando você tiver acordado, mas agora estou te ensinando a correr esta competição de triathlon devagar, porque o importante não é ser o primeiro, mas sim chegar na linha de chegada”

Em tudo isto que foi contado, onde muitos detalhes e sentimentos foram imprecisos ou omitidos, com certeza alguns impossíveis de ser descrito, nós resumiríamos todo este período como sendo carregado de muita dor, angústia, ansiedade, e tristeza, mas ao mesmo tempo tivemos o conforto da certeza de que Deus está presente de maneira muito intensa, nos aliviando, protegendo, confortando, preparando, enfim, nos respondendo, mas sobretudo falando conosco “Na multidão dos meus pensamentos dentro de mim, as tuas consolações recrearam a minha alma” Salmos 94:19. Entretanto, no meio destes últimos momentos, aqui relatados, podemos experimentar algo incrível. - Lembra daquele momento em que o Luciano, já na UTI, sofrendo com muita dificuldade para respirar, acordou de uma noite muito mal dormida, incomodado com o capacete respirador, e na ânsia de buscar uma distração para suas emoções e animo, pediu o ipod com o fone de ouvidos ? Depois de ouvir uma determinada música por alguns minutos, a qual não sabíamos qual era, e sem dizer nada retirou dos ouvidos e devolveu o equipamento para sua mãe, entendemos como óbvia a razão para ele aparentemente não tolerar a música, pois como conseguir ouvir música em uma situação como aquela? Justificando assim, pela tamanha agonia, e pela coincidência do Dr. Nelson chegar ao quarto naquele momento, e a ele pedir para ser sedado e intubado. Isto foi muito difícil! Bem, aos olhos do homem coincidência é a maneira mais vazia de se explicar algum fato de difícil entendimento, mas para nós o que existe nada mais foi do que a vontade de Deus expressa em uma ação. Dizemos assim, por que passados alguns dias que o Luciano se encontrava sedado, a Sissi pegou o i-pod do Luciano, e quando ela o ligou, tinha uma música pausada (era a música que ele ouvia, e pausou). Quando vimos qual era a música, o pedido feito ao Dr. Nelson e sua surpresa diante do fato, juntamente com o que poderia ter acontecido caso a medida não tivesse sido tomada naquela hora, se explicou como sendo a fala de conforto e dissernimento de Deus ao Luciano. Veja abaixo, a letra do trecho do antigo hino - Paz no Vale - ouvido pelo Luciano naquele momento....
Mui cansado estou, mas procuro o senhor
Dele a voz eu almejo ouvir
Na gloriosa manhã ou à noite ao dormir
Haverá paz no vale pra mim

Coro
Haverá paz no vale pra mim eu sei
Haverá paz no vale pra mim, senhor eu sei
Nem a sombra da noite ali verei
Haverá paz no vale pra mim


No mesmo dia em que ficamos sabendo como Deus havia falado ao Luciano através da música, recebemos no quarto uma visita do Leonardo, supervisor do ambulatório de oncologia do Einstein, e amigo do Luciano, o qual estava sempre ao seu lado levando carinho, distração e a “palavra de Deus”. Na visita, sem que ainda tivéssemos contado a experiência que o Luciano tinha tido com Deus antes de ser sedado, ele nos revelou que em sua última visita ao Luciano, ainda no ambulatório, enquanto ele orava com ele, Deus falou a ele que o Luciano deveria ouvir o que Deus tinha para lhe falar, entretanto na ocasião, ele não revelou nada ao Luciano, ficando isto só com ele. Logo após sua revelação, contei ao Leonardo como Deus havia tocado no Luciano, fazendo ouvir o que tinha para falar... falando através da música, cumprindo também a vontade de Deus, dele o ouvir.

Temos orado muito com o Luciano, se ele está ouvindo não sabemos, mas Deus tem ouvido sobre nossa convicção da cura, contudo, só pedimos a ELE que agilize seu restabelecimento o mais rápido possível. Nossa fé basta, e Deus está presente.

Compartilhe conosco a palavra de Deus para nossa oração de hoje com o Luciano:
- “Ouve, SENHOR, a minha súplica, e cheguem a ti os meus clamores. Não me ocultes o rosto no dia da minha angústia; inclina-me os ouvidos; no dia em que eu clamar, dá-te pressa em acudir-me. Porque os meus dias, como fumaça, se desvanecem, e os meus ossos ardem como em fornalha. Ferido como a erva, secou-se o meu coração; até me esqueço de comer o meu pão. Os meus ossos já se apegam à pele, por causa do meu dolorido gemer. Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho solitário nos telhados Os meus inimigos me insultam a toda hora; furiosos contra mim, praguejam com o meu próprio nome. Dizia eu: Deus meu, não me leves na metade de minha vida; tu, cujos anos se estendem por todas as gerações.” Salmo 102:1-8, 24.

Sissi e Orlando Alves Carneiro Júnior.