ESTOU DE VOLTA!!!!

Depois de quase um ano sem vir aqui, ESTOU DE VOLTA!!!!! Não vou voltar a postar todos os dias, como era de costume, mas sempre que puder estarei aqui deixando algo para vocês.

Hoje vou deixar uma estrevista que eu acabei de dar para ABRALE - Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia. Vocês poderão se atualizar quanto a como eu vou indo!!!

Abraços!!!!!!


Entrevista Revista Abrale
1) Quantos anos você tem? Como você começou a praticar triatlo? Por que escolheu esse esporte?
2) Qual sua trajetória no triatlo? Já disputou quais competições? Levou alguma medalha para casa?
3) Conte um pouquinho da sua história como paciente? Qual o seu diagnóstico? Quando descobriu a doença? Você mora em Goiânia e vem para São Paulo fazer o tratamento? Com que frequência?
4) Percebi que você é uma pessoa ativa. Pratica esporte, faz faculdade (do quê?). A doença e o tratamento têm limitado muito sua disposição para fazer essas atividades, devido aos efeitos colaterais ou mesmo ao psicológico?
5) O que mudou em relação aos seus treinamentos e exercícios físicos quando começou o tratamento? Parou de treinar totalmente, continua treinando triatlo com uma carga menor ou está fazendo exercício mais leves? O médico te passou alguma restrição ou recomendou algum exercício em específico?
6) Hoje, durante o tratamento, quais são as atividades físicas que você pratica? Você vai à academia,caminha, pedala? Com que freqüência?
7) Os médicos dizem que durante o tratamento é importante o paciente praticar exercícios, mas respeitando seus próprios limites. Quais são seus limites? Como você sabe quando os atingiu e está na hora de parar?
8) Para você, o exercício físico ajuda de alguma forma no tratamento? Como?
9) Que dica você pode dar para outros pacientes em relação ao esporte e à atividade física?
10) Quais são seus planos para quando terminar o tratamento? Vai seguir com a carreira esportiva? Qual seu objetivo?



1. Meu nome é Luciano Carneiro e tenho 23 anos. Comecei a praticar o triatlo (ou triathlon) com 17 anos de idade. Desde muito novo era um louco por esportes, já pratiquei ou brinquei com todos os esportes que vocês imaginarem até futebol americano e golfe, quando estudei inglês em Vancouver, Canadá, quando tinha 16 anos. Quando criança sempre pratiquei natação, e gostava muito de pedalar, quando mais velho, fui goleiro de futsal no colégio, ala direita no time de basquete no ensino médio e entrada no time de vôlei da academia. Mas como a natação e o ciclismo, por mais que fossem como uma diversão, sempre fizeram parte da minha vida, e o triathlon estava em muita evidência no meu meio de amigos da academia, decidi unir o que gostava e o que fazia bem, adicionar a corrida e começar para ver o que é que dava.


2. Começando então a treinar, acordava muito cedo para ir pedalar no autódromo de Goiânia, antes mesmo de ir para a Faculdade de Administração, a qual cursava na Universidade Católica de Goiás, onde hoje é a PUC-GO. Nadava e corria no final da tarde. No começo praticava 3 vezes na semana cada esporte, dando um total de 9 treinos por semana, fora as 2 vezes de musculação e os treinos eventuais nos finais de semana. Com uns 6 meses de treino descobri que teria um Campeonato Brasileiro de Sprint Triatlhon aqui em Goiânia, que consiste em: 750metros de natação, 20km de ciclismo e 5km de corrida. E para surpresa de todos fui Campeão Brasileiro de Sprint Triathlon na categoria 17 a 19 anos. A partir daí, não parei mais, e esse esporte passou a ser um estilo de vida, vivia para treinar, estudar e competir. Passei a viajar o Brasil inteiro para competir. Participei de inúmeras provas de Sprint Triathlon, com a distância já mencionada, de Triathlon Olímpico, que são 1,5Km de natação, 40Km de ciclismo e 10Km de corrida. E participei também de 3 provas de Meio-IronMan, que são 2km de natação, 90Km de ciclismo e 21Km de corrida, sendo duas em Brasília e uma em Pirassununga, a qual cheguei em 3º lugar na minha categoria. Mas, meus maiores feitos foram ter me classificado por três anos consecutivos (2007,2008,2009), para os Campeonatos Mundiais de Triathlon, em Lausanne na Suíça, Hamburgo na Alemanha e Vancouver no Canadá, respectivamente. Acima de todos os meus feitos o Campeonato Mundial de Vancouver foi o maior, pois nele estive entre os melhores do mundo na minha categoria, fui medalha de bronze, venci o frio intenso, o que para nos brasileiros é muito complicado e muitos atletas de todas as partes do mundo.


3. Como paciente minha historia começou quando eu tinha 8 anos de idade, com o meu primeiro câncer. Fui diagnosticado com um osteosarcoma no fêmur esquerdo, com o qual fui submetido a diversas quimioterapias e cirurgias. A principal delas consistia na retirada de um pedaço do fêmur com o câncer, e no lugar foi substituído pela minha fíbula esquerda e pedaços da crista ilíaca. O tratamento não foi nada fácil e duraram uns 2 anos. Com 10 anos, depois de sentir muitas dores na coluna lombar, foi descoberto um tumor de células gigantes, só que benigno dessa vez, mas por ser na coluna era um tanto quanto arriscado sua remoção. Após sua remoção tive que usar um colete de sustentação por um bom tempo, o que para uma criança super ativa e recém curada de um outro câncer não foi uma tarefa nada fácil, mostrando mais uma vez que não vim ao mundo à passeio e para brincar. Com 18 anos, já praticando o triathlon e com os tombos de bicicleta rotineiros onde já havia me dado uma clavícula quebrada, surgiu um caroço em uma das minhas costelas esquerdas. Como cair e machucar era normal para mim, esse caroço não passava de uma costela quebrada e calcificada que passou despercebida. Porém, como tenho pais preocupados com seu filho super ativo com um passado nada comum, fiz exames e descobri que tal caroço era um osteosarcoma paraostal. Era mais um benigno em um local nada fácil, próximo ao pulmão. A cirurgia de remoção da costela para mim foi uma das mais, senão a mais dolorida, só me lembro daquele dreno da grossura de um dedo mindinho se mexendo toda vez que eu respirava. E por último, com 22 anos de idade descobri que estava com uma Leucemia Mielóide Aguda. Na mesma hora que tive o diagnóstico, fui para o hospital começar as químios e os antibióticos para ceder à febre. Minha doença entrou em remissão logo no primeiro ciclo e fiz mais 3 ciclos de consolidação. Como não havia conseguido doador aparentado e não aparentado aqui no Brasil, partimos para a procura no exterior. Nos EUA achamos dois cordões umbilicais e uma técnica, que na qual expandia as células de um desses cordões. E assim segui para Houston no Hospital M.D. Anderson para participar desse Clinical Trial. Fui submetido a mais uma quimioterapia e ganhei minha nova medula no dia 11 de maio do ano de 2009. Com 11 dias já tive sinais de pega e com 21 dias foi o grande dia! Fiquei internado 35 dias ao todo, após a alta fiquei mais um mês em Houston. Voltei então para São Paulo para o Hospital Israelita Albert Einstein, onde desde o primeiro câncer é a minha segunda casa, para poder fazer os devidos acompanhamentos e organizar minhas idas e vindas para a cidade onde eu moro, Goiânia.


4. No momento, esportes que envolvem muita movimentação dos membros inferiores estão restritos devido a uma trombose que tive na perna esquerda assim que voltei para o Brasil. O que não me impede de estar no mínimo 3 vezes na semana na academia praticando musculação para membros superiores com um personal trainer. É lógico que meu rendimento agora, comparado a quando eu não tomava nenhum remédio não é o mesmo, mas a leucemia e as medicações nunca foram um limitante para eu manter meu corpo e minha mente saudáveis. Hoje depois da Administração de Empresas realizo um sonho de criança. Na mesma semana que descobri que estava com leucemia, descobri que havia passado no vestibular para medicina. Logicamente não pude começar o curso assim que passei, mas nesse inicio de ano comecei a realização do meu maior sonho, me tornar um médico e retribuir tudo que a medicina me favoreceu até hoje. Sou aluno de medicina da PUC-GO.


5. A partir do dia em que fui diagnosticado com Leucemia, achei que nunca mais fosse voltar a praticar algum esporte, o que não foi uma verdade. Com uma forte interação entre os meus médicos e meus educadores físicos, foi possível elaborar treinamentos onde não me consumisse muito, mas que ao mesmo tempo eu pudesse manter relativamente o que já havia ganhado até então em relação a condicionamento, e pudesse acima de tudo me divertir, queimar calorias e ter todos os benefícios da atividade física. Mesmo durante minha internação no M.D. Anderson eu tinha uma bicicleta ergométrica no meu quarto para sempre que quisesse poder pedalar, chequei a pedalar 10Km em um único dia, deixando todos boquiabertos. Meu histórico esportivo sempre foi um fator que ajudou muito na minha recuperação.


6. Hoje meu dia é praticamente todo tomado pela escola médica, mas nunca deixo de ir no mínimo 3 vezes na semana à academia fazer musculação, mesmo nos dias em que faço minha quimioterapia de controle. Mas assim que minha trombose não oferecer mais nenhum perigo voltarei a pedalar, corre e nadar.


7. Eu confesso que tenho um defeito, sou uma pessoa sem muitos limites. Mas venho aprendendo a conhecer meu corpo e, a saber, quando é hora de deixar a atividade física um pouco de lado e aproveitar outras coisas. Cada um tem que conhecer seu corpo e saber seus próprios limites, mas ao mesmo tempo, dar uma extrapolada neles às vezes não faz mal. “Pedalar 10km em quarto de transplante” não faz mal a ninguém (risos)!!!!


8. O exercício físico para mim é uma válvula de escape, é quando eu transfiro todas minhas ansiedades, raivas, dúvidas e medos para um simples peso na minha frente. E a sensação de prazer depois de algumas séries de musculação ou de um exercício físico qualquer não se compara a quase nada.


9. Para quem está passando pela leucemia ou qualquer outro tipo de câncer ou já passou e está se recuperando, eu digo que se você não tem o hábito de praticar uma atividade física com um acompanhamento profissional, está passando da hora de aproveitar todos os benefícios e prazeres que ela é capaz de proporcionar. A endorfina, que é um hormônio produzido pela glândula hipófise em resposta principalmente à atividade física, é o melhor remédio existente para o bem-estar!!! E quem está na luta contra o câncer que não quer uma pitada de bem-estar nessa hora???


10. Meus objetivos agora estão totalmente voltados para a minha formação médica, mas claro que sempre praticando uma atividade física. E quem sabe quando tudo se normalizar eu não trago mais uma medalha de um campeonato mundial para nosso país?